Embora se fale muito da chamada crise da meia-idade, pouca atenção tem sido dada aos fenômenos psicológicos decorrentes da transição que todos nós vivenciamos ao atravessarmos o ciclo da vida que se inicia por volta dos quarenta anos de idade.

A maioria das pessoas sente alguma mudança física ou psicológica que se manifesta por meio de “sintomas” como ansiedade sem causa definida, depressão, insatisfação com o relacionamento ou trabalho, angústia, dúvidas sobre o futuro, etc. Nas palavra da Dra. Katheleen ª Brehony: “muitas pessoas simplesmente se referem a um vazio que é ao mesmo tempo profundo e inexplicável”.

Na cerne dessa crise está a percepção, consciente ou não, de que já vivemos aproximadamente metade de nossas vidas, e que, provavelmente, muitos dos nossos sonhos não serão realizados e alguns dos projetos que construímos deverão ser abandonados. Mais complicado ainda: somos obrigados a confrontar de forma direta algum tipo de morte – a física de nossos pais, por exemplo, ou a de algum aspecto do nosso eu que já não faz mais sentido.

Para analistas junguianos, a meia-idade é uma crise do espírito, uma tomada da consciência, no nível mais profundo, de que a vida na segunda metade será diferente da primeira. Alguns a vivenciam de forma dramática e outros de forma mais sutil, mas todos a vivenciam em algum grau.

Já escrevi a respeito das dificuldades que muitos gays enfrentam diante dessa transição inevitável. Além dos aspectos mais óbvios relacionados à perda da juventude e de tudo o que ela representa na cultura ( e na subcultura gay ) ocidental massificada, percebo também na minha clínica a dificuldade que vários dos meus pacientes têm de encontrar um sentido para essa segunda metade da vida.

Frequentemente identificamos de maneira profunda com um estilo juvenil, individualista e orientado para o presente, muitos gays ao se verem no limiar dessa fase se sentem perdidos e sem uma perspectiva de futuro positiva. Com medo do envelhecer e atordoados por fantasias de abandono ( já que não serão mais fisicamente atraentes ), de solidão ( já que a maioria não tem filhos ) e de isolamento ( principalmente os que se separaram de suas famílias de origem ), mergulham em um estado depressivo crônico, difícil de ser atenuado de uma forma racional. Para alguns, o caminho é a simples negação dos sintomas. Para outros, o mascaramento desses mesmos sintomas por meio do consumo abusivo de substâncias ou de comportamentos autodestrutivoos.

Aceitar a crise de meia-idade como inevitável e acolhê-la como um rito de passagem transformador é, a meu ver, a única saída. Citando mais uma vez a Dra. Brehony, “a passagem da meia-idade é a porta de entrada para as camadas mais profundas da nossa alma”. É através dela que podemos nos reconectar com o nosso eu verdadeiro e retomar o caminho natural do qual fomos obrigados a nos desviar para atender as solicitações familiares, culturais e sociais da primeira metade da vida. E é ela também que pode nos levar a uma apreciação maior de uma expressão mais autêntica de nossa individualidade e a um enriquecimento da nossa experiência humana.

A crise da meia-idade é uma iniciação, um acontecimento físico, psicológico e espiritual inerente a nossa jornada rumo ao crescimento e ao autoconhecimento. Para nós, gays, uma oportunidade de re-assegurarmos nossa marcha em direção a integridade psíquica ( frequentemente comprometida pela homofobia internalizada ) e a inteireza do nosso ser mais verdadeiros ( muitas vezes aprisionado nos armários da vida.




Texto do livro de Klecius Borges - DeSiguais

Renata Valente
8/8/2011

Maravilhoso texto, exatamente o que acontece, após os 40 anos de idade, ficamos mesmo sem um sentido e achamos que não temos muito para brigar, sem motivação, pois ja passamos da idade que se luta para consseguir-mos, e se não deu certo algo na batalha anterios, énsamos que não teremos mais tempo, para prosseguir na luta de nossos objetivos, alto destrutivo.. adorei o texto.

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Fortaleza - CE

O texto toca em pontos muito importantes.

Eu estou experimentando a crise dos quarenta com algum estranhamento e desconforto.

Mas ao mesmo tempo saudando que eu gosto de ser chamado de senhor por jovens e velhos.

Sou obeso e tenho cabelos brancos o que me envelhece além da conta.Não temo pela velhice.


Sou estou um pouco perdido no campo profissional.Orginalmente formado em Letras, estou cada vez mais detestando ensinar adolescentes.

Estou tentando um concurso para assistente administrativo numa universidade pública local e sei que pelo apostila que estou estudando...mudei radicalmente de área.

Sou anarquista, libertário, queer e ando com anarco-punks bem mais jovens que eu.

A minha família, a sociedade...espera que alguém na minha idade tenha um CARRO, uma CASA, domine completamente um idioma estrangeiro, saiba dirigir bem um carro.E eu não me aplico em nenhuma dessas expectativas da alteridade.

A única coisa que queria era publicar meu livro de ensaios e tornar-se tradudor de poetas ingleses e ensaistas ingleses.

Ou seja, vou completar 40 anos domingo dia 12 de Fevereiro.Sinto angústia ás vezes, a era pós-moderna é complicada, a família não me compreende muito.

Mas sei lá...como diz o roqueiro Lobão:o universo está em expansão.

A gente é OBRIGADO a pensar positivo e seguir em frente.

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3/31/2013

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