A maior parte da problemática trazida a clínica gay tem como pano de fundo a homofobia internalizada. É com base nela que se manifestam uma série de sintomas - tanto no campo emocional quanto no desempenho  sexual propriemente dito -, influenciando enormemente o funcionamento psicológico do indíviduo.

Os efeito da homofobia internalizada podem ser observados na dissociação que muitos pacientes gays fazem entre seus comportamentos e práticas sexuais e sua identidade afetivo-sexual. Essa "dissonância", que é na verdade uma forma de defesa psiquíca contra a ansiedade gerada pela própria homossexualidade [ que dentro de uma sociedade heterocentrada é vista como medíocre, doentia, "demoníaca" ], acaba por levar a um comportamento sexual sem qualquer vinculação afetiva. Tal comportamento normalmente envolve o uso excessivo de pornografia, a prática do sexo anônimo e a compulsão sexual.

Como parte dessa problemática, se observa também que muitos gays tem dificuldade de estabelecer ou manter uma intimidade amorosa associada à vida sexual. Há inclusive uma crença generalizada, mantida pelos próprios gays, de que gays não se vinculam afetivamente e são naturalmente promíscuos.

Para Coleman et al. ( apud Davies e Neal ) a origem dessa dificuldade estão em não conseguir desenvolver uma identidade positiva e integrada, o que acaba gerando alto grau de estresse psíquico. As consequências dessa situação são problemas de relacionamento interpessoal e padrões de comportamento compulsivos - que, como vimos, têm a finalidade de lidar com a ansiedade.

Outra manifestação comum da homofobia internalizada se dá nos conflitos associados ao papel de gênero masculino. A questão da masculinidade aparece tanto na "persona" ( máscara social ) mais masculina ou mais feminina quanto nas preferências pelo ativo ou passivo nas relações sexuais. A própria comunidade gay, reproduzindo a sociedade machista, valoriza os gays mais masculinos ( que não aparentam ser gays ) e hostilizam os mais femininos. Da mesma forma, os ativos, ou seja, aqueles que preferem o papel sexual associado ao homem, também são considerados superiores e tendem a ser vistos de forma menos negativa. Essa questão costuma ser agravada pelos tabus relativos ao sexo anal, encarado por muitos como sujo e antinatural. A ansiedade em torno dessas questões pode funcionar muitas vezes como catalisador de comportamentos sexuais compulsivos.

Uma das questões mais complexas da sexualidade gay é a compulsão sexual. É muito importante que o terapeuta saiba distinguir entre a atividade sexual mais frequente e variada e o padrão compulsivo. Embora os gays - em função dos efeitos da homofobia internalizada , da história de abuso sexual cultural e de estilo de vida geralmente possibilita maior liberdade sexual - sejam mais vulneráveis à compulsão sexual, esse problema também é comum em heterossexuais. A maior parte dos autores concorda que a compulsão sexual é, na verdade, um transtorno relacionado com a intimidade que tem como função reprimir memórias dolorosas e eliminar sentimentos indesejáveis. O sexo é apenas o veículos escolhido [ muitas vezes inconscientemente ] para lidar com essas feridas. E no caso dos gays ele não é só valorizada como também facilmente obtido.

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Experiência de abuso sexual na infância, embora não façam parte da maioria dos gays, costumam ser um fator importante no desenvolvimento de ordem sexual e afetiva. Vários estudos indicam que crianças gays ( crianças que apresentam características de comportamento com algum grau de não conformidade com o padrão de gênero culturalmente estabelecido ) tendem a sofrer abuso sexual acima da média . Ao contrário do que se costuma afirmar, essas crianças não se tornam gays por causa do abuso; ao contrário, são abusadas porque são gays ( refiro-me aqui à orientação sexual homossexual, e não aos casos nos quais padrões de comportamento homossexual patologico podem ser desenvolvidos em decorrência da experiência traumática de abuso sexual). As experiências de abuso sexual na infância tendem a prejudicar o desenvolvimento psicossexual do indíviduo, levando a padrões afetivo-sexuais disfuncionais. Novamente o problemas não está na homossexualidade em si, mas sim na experiência traumática vivida pelo paciente gay.

Obs: Grifo e colchetes meus

Texto retirado do Livro Terapia Afirmativa de Klecius Borges

> O Livro pode ser comprado em diversas livrarias por este link: http://compare.buscape.com.br/terapia-afirmativa-uma-introducao-a-psicologia-e-a-psicoterapia-dirigida-a-​gays-lesbicas-e-bissex-borges-klecius.html 

Observação importante, para quem não sabe o que é homofobia internalizada

A homofobia internalizada tal como foi definida por Meyer e Deon, (1998) consiste na canalização para o self do próprio homossexual de todas as atitudes de valores negativos recebidos pela sociedade heterosexista, levando à desvalorização desse self, resultando em conflitos internos e pouca auto-estima.





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