No ótimo filme Encontros ao acaso ( Come Early Morning - 2006 ), do diretor Joey Lauren Adams, a personagem interpretada pela magnífica Ashley Judd passa as noites se embebedando no bar local e acordando na manhã seguinte na cama com um desconhecido qualquer. Ao contrário de muitas mulheres que se comportam dessa maneira ansiando por encontrar um namorado, é ela que sai de fininho pela manhã, fugindo de qualquer possibilidade de continuidade amorosa. E mesmo quando surge em sua vida um candidato perfeito que se enamora dela e se dispõe a investir num relacionamento real, é ela quem não consegue suportar a tensão que tal envolvimento requer.

            Assim como a personagem vivida por Judd, muitos pacientes que atendo sofrem com a mesma dificuldade. Embora desejem no nível consciente se relacionar amorosamente com um outro homem, não consegue na prática levar a cabo um relacionamento mais íntimo e mais profundo. Seus parceiros, normalmente conhecidos nas baladas, sob a influência de álcool e/ou das drogas, ou na net, nos chats de encontros sexuais, costumam perder todos os seus encantos após alguns encontros. Mantêm assim um ciclo interminável de busca e de frustração, vítimas de um destino do qual não conseguem se libertar.

            Tanto a personagem no filme como meus pacientes não sabem de fato amar e serem amados. Para eles, o amor é uma fantasia que se desmancha ao primeiro contato com a realidade e cuja existência concreta está  inexoravelmente atrelada à dor e ao sofrimento [ eis a idéia errada de que o amor só traz problemas ]. De alguma forma marcados profundamente pelas experiências da primeira infância, passam suas vidas desejando ardentemente um amor que não conseguem sentir ou retribuir verdadeiramente. Estão sempre e compulsivamente a procura de um outro que lhes possa tapar um vazio que é na verdade impossível de ser preenchido completamente.

            Esse vazio, manifestação de uma angústia existencial da qual todos nós padecemos em algum grau, adquire para esses indivíduos uma intensidade avassaladora. Sem conseguir lidar com as tensões normais de um comprometimento amoroso com intimidade emocional, idealizam em seus parceiros num primeiro momento, para em seguida, por medo do abandono, os abandonar. Ou seja, abandonam para não serem abandonados.

            Na minha clínica, essa psicodinâmica, cuja base estruturante se encontra nos sentimentos iniciais de conexão ou de desconexão com as figuras primordiais ( normalmente mãe e pai ), aparece fortemente potencializada pela complexidade dos afetos ( o que nos afeta emocionalmente ) decorrentes da orientação homossexual. É esse conjunto de idéias, imagens e sentimentos muitos negativos sobre si mesmo, internalizados desde cedo, que conhecemos como homofobia [ internalizada, vivida pelo próprio homossexuais devido a uma cultura heterocentrada ].

            No filme, embora a personagem se esforce para suportar o relacionamento íntimo proposto pelo forasteiro sensível e dedicado a ela, parece haver uma força mais forte que a impede de se entregar. Defende-se por meio de uma agressividade deslocada e da repetição de comportamento compulsivo de beber e de se entregar sexualmente a outros homens. Essa forca que, a impele a escolhas autodestrutivas, nada mais é do que uma tentativa psíquica de repetir a ferida inicial com a finalidade de dar consciência ao padrão disfuncional desenvolvido lá trás e, com isso, possibilidade o processo de cura.

           

             Para que essa cura possa de fato se dar, é necessário, entretanto, se identificar o padrão recorrente, buscando suas origens remotas na histórias pessoal e familiar do indivíduo. É preciso também uma boa dose de determinação para se investigar o passado no qual se ficou preso e disponibilidade para se dialogar com parte ainda desconhecidas da personalidade. E, sobretudo, coragem para abandonar o conforto psíquico e se aventurar em novos e desconhecidos padrões relacionais.

           

               Para a personagem do filme essa transformação não foi ainda possível. No final, só e melancólica, contempla a paisagem familiar e parece não enxergar uma saída criativa para a trama de qual é a um só tempo vítima e algoz. Para meus paciente, há sempre a esperança de que o processo de autoconhecimento que a terapia lhes proporciona sirva como chave-mestra que nos liberte da prisão do padrão neurótico, abrindo-lhes horizontes mais amplos, tornando-os então capazes de amar e de serem amados com a intensidade e a profundidade que suas almas anseiam.

Obs: Grifo e colchetes meus.

Do Livro DeSiguais de Klecius Borges.

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